
OK, o meu primeiro contato com a Shakespeare and Company, livraria que quase devoto, foi em um guia de viagens. Triste se não fosse pelo menos, um começo. E aí, a felicidade se deu quando, como por um acaso, trombei com o ponto turístico em uma caminhada pela sonhada Paris. Minha agonia por visitar o café de Amélie Poulain (estou certa que continuarei a falar disso mais “n” vezes) me deu como meta o Café de Deux Moulins, e a livraria seria uma tentativa menos imponente.
Chuviscava, Notre Dame recebia raios de sol que cortavam o céu azul-cinzento e barcos flutuavam sobre a água gelada do Sena. Um plano de fundo para romance francês. Quando a fachada verde com letreiro amarelo, número 37 da rue de la Bûcheriese, insinuou-se a minha frente, eu sabia que tinha satisfeito uma segunda agonia depois de Amélie. E lá estavam os livros espalhados por cada canto como se fossem moléculas de oxigênio. Encarei a livraria com tanto espanto e empolgação que, prometo da próxima vez ser menos turista.

“Não seja um mau anfitrião para os estranhos,
pois eles podem ser anjos disfarçados.”
(sugestão registrada na Shakespeare and company)
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A história da Shakeaspeare and Company está espalhada no Google, em guias, em livros. A primeira geração da livraria, a da americana Sylvia Beach, data 1919. Instituindo obras inglesas em ares parisienses, abriu a Shakespeare and Company na margem esquerda do Sena. Beach publicou Ulisses, de James Joyce, e sua livraria foi porto seguro e criativo para escritores como Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway, Gertrude Stein e Ezra Pound, e personalidades de outras áreas da arte, que lá se reuniam para discutir projetos e tomar chá. A livraria foi fechada em 1941, na ocupação nazista.
” … um lugar quente e amistoso, com uma grande estufa no inverno, mesas e prateleiras com livros, novos títulos na vitrine e, nas paredes, fotografias de escritores famosos vivos e mortos.” (Ernest Hemingway em Paris é uma Festa)
1951. É quando o americano George Whitman entra no enredo. George mudou-se para Paris e durante seus estudos de francês, fez do seu quarto alugado uma pequena biblioteca. Esse seria o embrião para a Le Mistral, a sua livraria no Quartier Latin. Sylvia e ele eram amigos e, após a morte dela, ele comprou a sua coleção de livros. Em 1964, no aniversário de William Shakespeare, a Le Mistral faleceu para renascer a segunda geração da Shakespeare and Company, com o espírito receptivo e literário. O revolucionário talvez ainda mais aguçado. A livraria de George Whitman já recebeu nomes como Lawrence Durrell e os polêmicos Henry Miller e Anaïs Nin.

A Shakespeare and Company foi e ainda é o marco zero de eventos literários e artísticos (o festival literário parece ser o máximo e uma boa sugestão para 2012, antes que o mundo acabe), e um verdadeiro abrigo de escritores, radicais e almas moribundas. Com o lema “dê o que puder, e pegue apenas aquilo que precisar”, hoje tem site (não deixe de conferir as imagens) e outros “requisitos do mundo power moderno”, mas a sua essência não tem alarmes, câmeras de segurança e caixa registradora eletrônica. É uma oferta aos que tem fome literária ou de sopa.
O jornalista canadense Jeremy Mercer teve seus dias memoráveis na livraria. A inspiração resultou no livro Um livro por dia – Minha temporada parisiense na Shakespeare anda Company, que consumi em alguns goles:
“Dois meses antes, eu tinha um bom emprego, com salário invejável, um elegante sedã alemão preto financiado, um apartamento em um bairro elegante do centro, uma coleção de camisas e paletós caros pendurada no armário. Agora, havia algumas poucas centenas de dólares no meu bolso, nenhum emprego nem perspectiva de conseguir um, algumas roupas amassadas dentro de uma mochila velha e, para chamar de lar, uma cama em uma antiga livraria. Mesmo considerando tudo isso, eu não poderia estar mais feliz.”
George Whitman é vivo e está próximo do seu centenário. Quem cuida da livraria hoje é a sua filha Sylvia Whitman. Sylvia de Sylvia Beach.
#botão de dica
Por falar em Paris, Shakeaspeare and Company e Ernest Hemingway, fica a sugestão de deliciar-se com a película Meia Noite em Paris, de Woody Allen. Quase que uma fábula moderna de total paixão pela Cidade Luz, é uma pausa para a imaginação e para uma enciclopédia literária.